Elevator Pitch: Seu Comercial de 30 Segundos

Parte 1: “Onde é que eu estou errando?”

Maria Clara Whitaker

Coach e Fundadora da VITAMINA

Vamos imaginar que você, pessoa em mudança de carreira, esteja entrando no elevador em uma dessas feiras corporativas enormes que acontecem anualmente sobre a sua área de atuação. Eis que, a instantes das portas se fecharem, alguém grita “Sobe!” e consegue entrar no elevador com você. E – pasme – trata-se do CEO da sua empresa dos sonhos.

E agora, o que você faz?

 

 

 

 

Leva uma chinelada* quem disser, “Ah, fico na minha; o que é que eu falaria para esse cara?” Oportunidades assim equivalem a ganhar na loto; dizer isso seria como deixar de pegar o prêmio no banco porque poderia haver fila. Não! Você, criatura iluminada, vai se virar para o dito cujo e, nos 30 segundos de trajetória do elevador, vender o seu peixe pra ele, como se fosse um comercial. Este é um recurso chamado elevator pitch ou elevator speech (“venda” ou "discurso" em elevador).

Só que aí você vai e me solta a seguinte sequência de pérolas:

 “Éééééé... Nossa, oi! O senhor é da (___nome da empresa dos sonhos___) né? Nem acredito que eu tou aqui com o senhor. Acho mó legal o que cês faz. Ai, desculpa, nem me apresentei. Eu sou o (___seu nome___). Eu sou (engenheiro/administrador/domador de focas/o que for). Na verdade eu queria ter cursado (Letras/Filosofia/Astrofísica/whatever), mas os meus pais me convenceram a fazer algo que tivesse mais mercado depois. Aí eu cursei, e foi mó bom. Depois fiz um estágio que nós tinha que fazer, mas que era chato, porque os colega ficava tudo puxando saco do chefe, se exibindo, sabe? Eu acho que a gente tem que ser humilde e deixar o trabalho falar por nós. Mas então, voltando ao assunto, aí eu trabalhei numa loja, depois passei um tempo sem trabalhar, depois fui pra outro negócio. Aí eu ouvi falar da sua empresa. Cês faz internet, né? Ah, sistemas de que? Automação? Mas então, eu queria muito que o senhor me desse uma oportunidade de... Ah, chegamos, mas pera um pouquinho... Não mas... É que eu tou sem o meu cartão, mas pode deixar, a gente vai estar ligando pro senhor. Me adiciona no Twitter: @MulekeSafadu_2953. Tchau, hein? Desculpa qualquer coisa!”

Respire fundo. Se recuperou? OK. Agora vamos lá: onde foi que você errou?

1) Quem é a plateia?

Você não está falando com aquele seu primo divertido do interior. Você está falando com um executivo atarefado, preocupado com um milhão de outras coisas que para ele são bem mais importantes que, digamos, a relação que você tinha com seus pais. Ajuste sua formalidade e sua objetividade de acordo com a pessoa que está na sua frente. Sempre, aliás.

2) Qual é a empresa da plateia?

Nada pior que falar uma coisa completamente errada sobre o que faz a empresa dos seus sonhos para a pessoa que poderia colocar você lá dentro, exceto talvez fazer isso de boca cheia. Mantenha-se informado sobre o mercado. Isso ajuda não só a ter conteúdo, mas a se antecipar aos nichos nos quais você poderia atuar. Fique esperto.

3) “Faço tudo mas não faço nada”

OK. Você se formou em tal e tal coisa. Trabalhou nessa ou naquela empresa. E daí? Como é que isso agrega valor para a pessoa? Pare já com isso. Foque, e pense bem: o que é que faz de você um profissional no qual o outro deveria prestar atenção? O que é que ele ganharia em ter você por perto? Vale a pena fazer uma reflexão sobre o que você traz à mesa, o que você faz que é interessante para os demais. Falaremos mais sobre isso na Parte 2.

4) Recital de currículo

O seu comercial de 30 segundos não serve para você enumerar todas as empresas pelas quais andou, contar onde se formou, de onde você é, a não ser que isso seja especificamente relevante à pessoa com quem você está falando. Por exemplo: “Trabalhei na BlaBlaBla Inc., onde desenvolvi um sistema capaz de resolver aquele problema que a sua empresa vem enfrentando.” Pronto, você prendeu a atenção do cara.

5) Falsa modéstia

Talvez um dos hábitos mais peçonhentos do brasileiro, a falsa modéstia – “Eu acho que a gente tem que ser humilde e deixar o trabalho falar por nós” ou pior (muito pior): “Desculpa qualquer coisa” – está intimamente ligada à nossa dificuldade em falar o que é que temos de bom. Colocando de lado todas as objeções que tenho em relação a essa prática, pense bem: você só tem 30 segundos, um mísero passeio de elevador, para impressionar o cara. Você realmente vai querer gastar esse tempo fazendo-o nadar em um mar de enrolações para tentar adivinhar por que o seu trabalho é tão legal?

6) Onde achar você?

Arrobas de mau gosto e/ou difíceis de lembrar? Blogs espantosos? Um about.me sem foto nem nada, apenas um link para uma página que você não alimenta jamais? Você pode fazer melhor que isso. Facilite a vida do seu alvo e tenha uma forma de contato bacana a postos. O tradicional cartão de visitas é uma boa aposta para um elevator pitch; é como se fosse um brinde da breve conversa que vocês tiveram, um lembrete daquilo que você pode fazer por ele, e, lógico, um objetinho portátil que fala por quais meios ele pode falar com você.

7) Erros de português

Algumas pessoas que falam “Foi mó bom”, “Porque os colega ficava tudo puxando saco” ou ainda “Cês faz internet” se convenceram, em algum momento, que:

a) o uso correto do idioma era facultativo, e

b) pessoas importantes de empresas desejadas se importarão tão pouco com gramática quanto a galera do churras de domingo passado.

Será que o executivo na sua frente pensa mesmo que esse seria um bom jeito de ter a empresa dele representada? Pense bem. Ah, e quanto ao gerundismo descontrol (“A gente vai estar ligando pro senhor”): pare. Simplesmente... Pare.

Há sempre formas de melhorar o jeito de nos apresentarmos aos demais. Fique atento a estas dicas, e você evitará dar algumas das mais comuns pisadas na bola dos elevator pitches. No próximo artigo, veremos como montar um comercial de 30 segundos interessante e eficiente. Até já!

*chinelada: brincadeira, tá?

 

Veja Também:

Perguntas Inusitadas em Entrevistas de Trabalho

Extrovertidos x Introvertidos: Quem Leva a Melhor?

 

Este texto pode ser reproduzido pela Emprego e Carreira, o blog da Monster Brasil, desde que citada a autoria de Maria Clara Whitaker, da VITAMINA.

blog comments powered by Disqus