Defendendo um Tiro no Pé

Ou: quando a independência se confunde com a bizarrice.

Maria Clara Whitaker

Coach e CEO da VITAMINA

 

Há um tempo atrás, fui chamada por uma multinacional de serviços para montar todo um programa de desenvolvimento para o seu quadro de funcionários. Segundo a diretora que encomendava o pacote, o programa deveria incluir temas importantes para a melhoria geral. E teria que começar com um módulo sobre “como vestir-se bem no trabalho.” Os outros módulos poderiam ser definidos posteriormente.

Luz amarela. Hora de investigar mais. “Você percebe que o seu quadro, como um todo, precisaria se vestir melhor?” perguntei.

“O quadro todo não. Mas veja a Fulana: já até conversamos com ela sobre a forma como ela se veste, mas ela se ofende com isso, diz que esse é o jeito dela. Só que agora estamos recebendo reclamações dos clientes. Outro dia, por exemplo, ela foi a uma reunião externa vestida de toureiro!”

Eu conhecia a Fulana em questão. Profissional extremamente competente, há anos no mercado, várias titulações. Só que o jeito de ela se vestir causava um impacto tão forte no outro que isso se tornava um obstáculo a ser superado para se poder enxergar as suas qualidades, gerando um enorme desconforto nos demais em favor de honrar a sua  independência de estilo. E assim, colocava a empresa na situação de ter que escolher entre investir um tijolo de dinheiro para tentar novamente solucionar o problema, ou então simplesmente demiti-la.

 

Há alguns fatores importantes aqui:

  1. É vital que consigamos identificar e lutar em favor das coisas que nos motivam e nos diferenciam dos outros; caso contrário, dedicaremos toda a nossa existência a nos conformarmos às expectativas dos demais, o que é depressivo e entediante.
  2. Diferenciar-se das normas vigentes causa um desconforto natural naqueles que nos rodeiam. Isso se traduzirá em surpresa, estranhamento, crítica, admiração, demissão ou promoção, dependendo da situação e do público.
  3. Nossa própria reação à reação alheia pode ser de fazer pequenos ajustes para tornar a característica mais confortável para todos; podemos também optar por defendê-la com unhas e dentes, em favor do nosso “jeito de ser”.
  4. A opção de reação que nós mesmos fizermos terá impacto nos nossos mais amplos e profundos objetivos, em curto, médio e longo prazo.

O problema é quando nos afastamos cada vez mais daquilo que verdadeiramente queremos para as nossas vidas porque paramos na segunda nuance do terceiro fator. Aí, embriagados por medo/preguiça/confusão, empacamos na nossa Zona de Conforto e argumentamos, “Eu sou assim mesmo, os outros é que se ajustem. Se não se ajustarem, eles é que são feios, chatos, bobos e limitados.”

Quer exemplos?

  • Deixar de obter postos mais vantajosos na carreira em favor de mostrar aos clientes executivos que se tem o poder de escolher usar uma calça amarelo neon com laçarotes em toda a lateral das pernas, justificando: “Assim mostro a eles que é importante a gente pensar fora da caixa.”
  • Ter visual, saúde ou vida amorosa insatisfatórios, decorrentes de não se lidar efetivamente com um problema de peso, argumentando: “As pessoas têm que gostar de mim pelo que eu sou.”
  • Queimar pontes e gerar conflitos ao ponto de reduzir drasticamente o network, as oportunidades de carreira e o círculo de amizades, porque “Eu sou uma pessoa que fala o que pensa, doa a quem doer. Se o outro não gostar, é porque ele é fraco/incompetente/invejoso/whatever.”

Claro que tais posturas podem ser favoráveis a nossos valores; de fato, devemos identificá-los e zelar por eles em nossas escolhas de vida. A coisa se torna problemática quando o fazemos exageradamente e às cegas, interferindo nas notas metas de vida e de carreira.

Nem sempre é possível diferenciar a independência da bizarrice, ou enxergar os seus impactos nos nossos objetivos. O melhor caminho a se tomar, nesses casos, é conversar com um coach devidamente qualificado, que nos ajudará a definir o que realmente queremos da vida, acompanhando-nos no trajeto a tomar para se chegar lá. Não é um percurso fácil ou gostoso, pois precisaremos abandonar velhos costumes e crenças que nos mantém estagnados na tal da Zona de Conforto; porém, quando bem feito, é um processo altamente recompensador.

Para começar, vale uma reflexão: “Qual o meu sonho de vida? E que ações e reações dos demais estão gerando obstáculos para que eu realize este sonho?”

Pense nisso.

Este texto é dedicado ao Oliver, que nasceu enquanto eu escrevia o artigo heart

Veja Também:

As 6 Novas Regras Para Festas Corporativas

Alerta: 6 Sinais de que Este Emprego Será um Pesadelo

 

 

Este texto pode ser reproduzido pela Emprego e Carreira, o blog da Monster Brasil, desde que citada a autoria de Maria Clara Whitaker, da VITAMINA.

 

blog comments powered by Disqus